“Não é o vírus que tira meu sono” – Diz o historiador

O historiador econômico naturalizado americano Joel Mokyr costuma se diferenciar de seus pares por um olhar otimista sobre a capacidade da sociedade de enfrentar os desafios que os tempos atuais impõem. Um dos maiores especialistas do mundo em economias industriais modernas e professor na Universidade Northwestern, em Chicago, Mokyr acredita que os avanços científicos e tecnológicos tenham criado uma resiliência muito maior das economias perante as adversidades. São essas conquistas que o fazem pensar que o impacto do coronavírus deve ser limitado.

O historiador, porém, diz que tem se preocupado muito mais com retrocessos na democracia, nas instituições e nas liberdades individuais.

“Essa é a vulnerabilidade da sociedade hoje. A prosperidade econômica exige um alto grau de liberdade, inconformismo e gente pensando fora da caixa”, afirma Mokyr. Leia a seguir a entrevista concedida à ­EXAME.

Do ponto de vista da história econômica, como o senhor dimensiona a pandemia do novo coronavírus?

> A pandemia vai trazer mudan­ças permanentes, mas, pensando num cenário mais amplo, não acho que mudará o curso da sociedade. Continua­remos a ter um crescimento econômico baseado em avanços cie­ntíficos e tecnológicos. É fato que não vivemos nada parecido com isso nos últimos 100 anos. Surgiram novos vírus, como o zika e o HIV. Pense na aids: quando surgiu, era asso­ciada a grupos como o de homossexuais e o de hemofí­licos. Não havia um medo co­­letivo de contrair aids. No caso da covid, sabe-se que os assintomáticos são capazes de transmitir a doença, mas não há segurança de como e quando isso ocorre, o que exigiu que tudo fosse fechado e as pessoas se recolhessem em casa.

Mas os impactos econômicos serão profundos…

Sim, os efeitos de longo prazo vão persistir. Talvez sejam necessários dois ou três anos para estarmos no patamar do PIB global anterior ao da pandemia. Mas os efeitos são dispersos e desiguais. Há setores que foram duramente atingidos, como o transporte aéreo. Um grande número de pequenas empresas, talvez 50%, não voltará a operar nos Estados Unidos. Negócios como restaurantes, oficinas, salões de beleza não vão sobreviver à crise. Mas é como ocorre depois de um incêndio florestal: o meio ambiente é tão favorável que outras árvores vão nascer naquele lugar. No caso de um restaurante, por exemplo, a demanda deve continuar lá, os profissionais permanecem disponíveis. Outros virão.

Mas quais mudanças a pandemia deverá trazer?

Haverá, obviamente, ajustes na economia. E nem todos serão ruins. Muitas pessoas descobriram que conseguem trabalhar produtivamente de casa, e o teletrabalho será cada vez mais comum. Vamos repensar a utilização dos espaços, que na prática são aproveitados somente 50% do tempo. Metade do tempo nós estamos em casa; e metade, no trabalho. É muito desperdício.

As pandemias do passado não nos prepararam para a atual?

Sempre soubemos do risco de novas pandemias. Os governos têm sido alertados para isso e sobre como deveriam responder adequadamente. Historicamente, o meio ambiente joga contra os seres humanos. Doenças antigas sofrem mutações e podem se tornar mais agressivas. Foi isso que aconteceu com a varíola. Era um vírus que sempre esteve por aí e, entre os séculos 16 e 17, uma mutação o tornou muito mais virulento. As pessoas ficaram apavoradas, pois era uma doen­ça terrível e mortal. Aí descobriu-se a vacina em 1796 e foram necessários 200 anos para que a doença fosse erradicada. Um processo parecido ocorreu com a pólio nos anos 1920 e 1930, quando surtos da doença provocaram pânico. E aí veio a vacina nos anos 1950. Essas coisas se repetem. É uma eterna guerra entre os humanos e os microrganismos que tentam nos matar.

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